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QUANDO A REALIDADE É DURA… E PERDURA (por João Carlos Costa)

QUANDO A REALIDADE É DURA… E PERDURA (por João Carlos Costa)

 

Marc Coma tinha avisado: o Dakar 2017 ia ser duro e desde o primeiro quilómetro. Somam-se 70 abandonos e a percentagem podia ser maior se o quinto dia não tivesse ficado pela metade e o sexto sido levado no dilúvio de um São Pedro boliviano que teima em enviar água, pouco benta, para as esperanças dos concorrentes do Dakar. Tudo isto, num país que estava a viver uma das maiores secas de sempre…
Talvez desta acabe a polémica do “isto não é o Dakar”. Para os que vão falar das etapas anuladas, lembro sempre 2000, onde foram quatro, de seguida, por terras de África. Também por que, desportivamente, a edição 2017 tem sido um sucesso. Em cinco dias houve sempre mudança de líder nos carros, motos e quads. Só nos camiões aconteceu “bis”, nas duas últimas etapas.
Ponto final na “política”. Hora de “cronómetro”. E aí, nas quatro rodas, a Peugeot está a um curto passo (para quem “calça”… 3008) de fazer a festa. Se calhar, permitindo-se ao luxo de escolher o vencedor que der mais jeito entre Stephane Peterhansel, Sebastien Loeb e Cyril Despres. Acredito que a luta, nos troços e no departamento de marketing, vai ser entre alsacianos. E que Loeb será o “escolhido”.
Claro que há ainda o “espinho” Nani Roma entalado a 5m35s, com o espanhol a mostrar que a Toyota Hilux evoluiu, sobretudo agora que respira pelo mesmo restrictor de 38mm que os turbo-diesel. Contudo, está um pouco ultrapassada face ao proto/buggy/nave-espacial que a Peugeot montou, onde até mesmo as suspensões “dançarinas” são um problema do passado. Talvez por saber que as seis vitórias na Taça do Mundo eram apenas “degustação”, Nasser Al-Attiyah apostou a andar sem margem, sempre naquele fio da navalha do risco onde por vezes se “cortam” rodas… e a esperança de triunfo. Está na hora da Toyota fazer a agulha para o 4×2. Mais ainda, convencer a casa-mãe no Japão (e o departamento de competição em Colónia) que este projecto tem de ser como a mulher de César – não basta parecer que é oficial; tem de ser! Veja-se os meios, a começar nos financeiros, quando comparados com os da Peugeot. Ficam-se pela metade. Por isso, se a Toyota ganhar será uma enorme conquista, enquanto os franceses não têm desculpa para perder, mesmo se voltaram a escolher Carlos Sainz. O espanhol amarrotou mais um carro no Dakar voando ribanceira abaixo, que como se sabe, pela quinta edição consecutiva, é a maneira mais rápida de chegar a… Madrid!
A Mini vem mostrando que os John Cooper Works evoluídos no nome, na estética e no centro de gravidade, estão numa classe de “pré-clássicos”. São uma espécie de tanque, quase indestrutíveis (há quatro no Top 10, tantos quantos os Peugeot), mas onde o poder de “fogo” parece limitado ao de Mikko Hirvonen. Quando o finlandês falha o alvo da navegação, falta potência de “destruição”. Com os “danos colaterais” talvez dê para um pódio…
Nas duas rodas, a Honda tenta, a Yamaha tenta, mas ficam-se pelas duas vitórias em especiais. Claro que a KTM perdeu Toby Price, só que as três motos oficiais da marca austríaca ganharam troços e é Sam Sunderland que lidera. Continua a ideia que os pilotos não precisam de arriscar tanto com a 450 Rally, eficaz em todas as situações. Ainda assim, fica a questão: serão o inglês das dunas e Mathias Walkner donos de cabeça fria suficiente para evitar os erros? Os dois dão menos garantias que dava o australiano que partiu o fémur…
Será então a Honda a aproveitar? Não, porque o team-manager fez como o Professor Marcelo e leu o regulamento-desportivo na diagonal. Ficou com apenas com uma ideia da história e levou os pupilos a abastecer em zona proibida na 4ª etapa. Os 60 minutos de penalização colocam Paulo Gonçalves como o melhor da marca, mas em 9º e a mais de uma hora, apesar dos três pódios em tiradas. Pelo quinto ano consecutivo, a Honda a fazer a sua própria cama… desta feita porque se esqueceu do livro na cabeceira!
Não parece ser desta que a Honda regressa ao triunfo que lhe escapa desde 1989. Será então a Yamaha a quebrar um jejum de 19 anos? Se Hélder Rodrigues tivesse acordado na primeira semana, talvez. Mas o despertador biológico tem estado com problemas e o diapasão mais afinado tem sido Adrien Van Beveren, terceiro a 16m07s do líder. Resta saber se o francês será capaz de manter os “compassos” do ritmo e do azimute sempre certos…
Talvez Portugal ganhe o Dakar com Rúben Faria a comandar os destinos da Husqvarna. A “KTM B” é feita da mesma fibra da original. Pablo Quintanilla tem muito experiência. As minhas fichas vão para o chileno, que tem 12 minutos certos para recuperar. Ou então, passam as equipas oficiais pela vergonha de ser Gerard Farres-Guell a levar a KTM ao 16º triunfo consecutivo, já que Stefan Svitko também caiu na armadilha de reabastecimento ilegal e desceu de 7º para 20º da geral com a hora de penalização.
Duas palavras ainda para Joaquim Rodrigues Jr., qual Vasco da Gama a dar a conhecer a indiana Hero. J-Rod é o melhor dos rookies na 10ª posição, apesar de um polegar partido desde o segundo dia. Mas também para Gonçalo Reis, terceiro “Maratona” e nos 30 primeiros. Ou seja, Portugal tem uma “segunda vaga” para nos fazer continuar a sonhar, este ano e nos seguintes.
Outras duas pinceladas, rápidas, para as batalhas nos camiões e quad. Nos primeiros, há tradições que demoraram a quebrar. Muitos sonham, mas voltamos a viver um duelo Iveco-Kamaz, sem que se perceba onde está a força maior. Nos quadriciclos, o melhor é deixar as previsões para depois da bandeira de chegada. Já vi montanhas-russas com menos sobe e desce…

JOÃO CARLOS COSTA
Comentador Eurosport

 

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