Segunda-feira , Abril 6 2020
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Em Sever do Vouga há Ralicross, Kartcross, Super Buggy…

Em Sever do Vouga há Ralicross, Kartcross, Super Buggy…

 

«Tinha uns 16 ou 17 anos e as rádios, piratas, ou livres, eram um fenómeno emergente, que despoletava discussões, mas sobretudo que despertava paixões e servia de trampolim para muitos profissionais que, se calhar sem o saberem, se estavam a transformar nisso mesmo.

No Porto havia um projeto, talvez o primeiro digno desse nome, que era a Rádio Caos. Um projeto muito ´under ground´, em que cada dia era uma espécie de aventura, de jogo do gato e do rato, entre os homens da Caos e os Serviços Radioelétricos.

A Caos tinha assim uma aura de mistério, algo secreto, que se sabia existir, mas que ninguém sabia muito bem onde. Falava-se de uma cave ali para os lados da Lapa, mas também de casas abandonadas e carrinhas preparadas para emitir. Eu cá acho que que a Caos era mesmo no quarto de alguém que gostava de música e sabia como fazer um emissor.

Depois veio a segunda vaga. Apareceu a Rádio Delírio e essa sim até se sabia onde era – era no Edifício Raione, no último piso – tinha telefone fixo e os seus colaboradores não se esfumavam em nevoeiro. Foi nessa que eu comecei e à minha volta tantos deram os primeiros passos profissionais, sem que disso tivessem real consciência, acrescento eu.

Um desses era o Rui Sousa, um enorme apaixonado por música e que ainda hoje faz da música profissão. Entretanto, eu que até achava que um dia iria ser arquiteto, comecei a fazer um programa de automóveis. Chamava-se “O Grande Prémio”.

No “universo Grande Prémio” fizemos coisas giras. A Rádio Delírio foi “patrocinadora” de um valor emergente, um puto chamado Pedro Matos Chaves e até tinha o apoio de um valor bem sólido, chamado Diabolique, porque um dia bati à porta do Dr. Miguel Oliveira e ele deve ter achado graça à proposta.

Faziam-se coisas giras. Por exemplo, um dia entendi que ser só eu a fazer o programa não era suficiente e então criei uma equipa. Tinha um colaborador que só falava das corridas americanas, outro que já não lembro bem qual era a especialidade e até um só para falar de motos. Ainda o faz, e bem, na Autofoco.

Depois da Rádio Delírio, veio o Autosport, o Primeiro de Janeiro, a Rádio Nova, a RTP, a NTV e por aí fora, até que vou regressar às origens um dia destes.

Lá está, comecei com algo que parecia uma diversão e estou prestes a regressar às origens… Afinal foi mesmo carreira». É ao olhar para trás que, Pedro Gil Vasconcelos recorda como aquilo que via como «uma diversão gira», foi de facto, o seu primeiro trabalho…

Em Sever do Vouga há Ralicross, Kartcross, Super Buggy e a Lenda da Moura da Cerqueira

Capital portuguesa do mirtilo, Sever do Vouga é um município reconhecido pelas suas magníficas paisagens naturais e culturais, nas quais se enquadram algumas das mais belas cascatas do país, o idílico vale do Vouga, inúmeros miradouros sobre a costa atlântica, bem como, um rico e preservado património megalítico. É precisamente neste cenário paradisíaco que o Campeonato de Portugal de Ralicross, Kartcross e Super Buggy vai arrancar com o 46º Ralicross de Sever do Vouga 2020.

Um arranque especial para o Vouga Sport Clube que em fevereiro passado comemorou 40 anos de existência, desde que o organizador do campeonato iniciou o seu trabalho em prol do desporto automóvel. Com o cenário montado e uma lista de inscritos apelativa, a afamada pista do Alto do Rocário abre portas no próximo dia 7 de março, onde irão decorrer as verificações técnicas e documentais e a partir das 14h00, irá haver treinos livres, treinos cronometrados e realização das 1ª e 2ª corridas de qualificação. No domingo, arranca o warm up às 9h30, seguindo-se as 3ª e 4ª corridas de qualificação e, a partir das 14h00, serão disputadas as meias finais e finais, cerimónias de pódio e entrega de prémios. Pedro Gil Vasconcelos confirma que o trabalho está completo, e que o público vai ter a oportunidade de assistir a um grande espetáculo. «É uma competição em que a única gestão possível é ser rápido, pois as corridas são muito curtas e qualquer hesitação pode pagar-se com a perda de posições, comprometendo um possível bom resultado. Por outro lado, a realização de várias corridas, com todo o processo de eliminatórias que conduz às finais, garante bom espetáculo para o público e tempo de qualidade para os pilotos». Pedro Gil Vasconcelos não tem dúvidas que 2020 promete fortes emoções para a modalidade, que todos os anos tem atraído cada vez mais adeptos.

Por ser a prova inaugural do campeonato, as expetativas são sempre maiores, mas Pedro Gil Vasconcelos acredita que no Ralicross não há essa distinção, aliás, nas palavras do promotor do campeonato, cada prova tem uma história para contar. «Claro que a primeira prova tem sempre o dom de ser o momento em que se ´toma o pulso´ ao campeonato em cada ano e Sever do Vouga vai cumprir, estou certo, muito bem esse papel. Em dezembro passado comemorou 30 anos sobre a realização da primeira prova internacional de Ralicross em Portugal. Por outro lado, Lousada com toda a tradição dos Campeonatos da Europa, que abriram caminho para que o Ralicross seja o que é hoje entre nós e para os Mundiais que se disputaram e vão disputar em Montalegre. Há ainda traçados como Mação, que tanto ajudam a descentralizar o desporto motorizado e Castelo Branco, que apesar da interrupção que teve ainda há pouco, está a recuperar público, com um ótimo trabalho realizado em prol da modalidade. Mas claro que depois há todos os outros planos, o desportivo, com pilotos de grande nível, com grande corridas e o facto de no Ralicross termos os pilotos de automóvel mais jovens, sendo o Ralicross uma escola que forma pilotos de grande valor».

Mas Sever do Vouga é muito mais do que o circuito esconde e as paisagens descrevem. Reza a lenda que, no tempo em que os mouros dominavam a região, uma moura muito grande e muito arrogante, quando dava os seus passeios levava o filho ao colo e uma roca para fiar o linho. Certo dia, sentou-se na borda do caminho, para amamentar o filho e apareceram-lhe inimigos em grande número. Ela para se salvar transformou-se numa pedra moura. Ainda agora, os habitantes do Coval e da Cerqueira, em certas noites de Lua Cheia, ouvem os gemidos da moura.

Lendas à parte, também Pedro Gil Vasconcelos tem uma história para contar – o dia em que se dedicou ao dirigismo, sem esquecer, com saudade, a verdadeira razão pela qual se apaixonou por este desporto. «É uma espécie de tradição familiar. O meu pai chegou a fazer umas corridas de motos, depois um cunhado que chegou a ser campeão de promoção e o meu irmão que está desde sempre ligado ao desporto automóvel, foram os pilares desta paixão. Depois, foi em Vila do Conde que tudo começou de facto, fui agente de segurança, na altura com uma equipa fantástica liderada pelo Carlos Navega Vasconcelos, segui para “bandeirinha”, para chefe de posto, diretor de prova ajunto nos karts, acho que fui o mais jovem de sempre, e depois foi a competição. Comecei a competir no Todo-o-Terreno e depois nos Ralis, como navegador, passei pela Velocidade e claro, tenho também a ligação profissional, que me fez passar pelo Motor, pelo AutoSport, pela Rádio Nova, pela RTP… e que começou na Rádio Delírio».

Andreia Sofia Fernandes Sousa: a senhora que levou o carro do pai e assumiu o seu território num mundo de homens

Filha do piloto José Sousa, que conta já com algumas décadas no Autocross e Ralicross, Andreia Sousa cresceu nesta modalidade, e desde tenra idade que acompanha a família em provas e faz parte da claque do pai.

Em 2018, Andreia Sousa foi ao Ralicross de Sever do Vouga com o carro até agora conduzido pelo seu pai (Peugeot 306), que veio da Iniciação e tem demonstrado que o Ralicross não é uma modalidade apenas para ´homens de barbar rija´ e que as mulheres também têm uma palavra a dar no que toca a conduzir depressa e bem. Em 2019 Andreia Sousa foi classificada como a melhor senhora da modalidade, além de ter conquistado o segundo lugar no Campeonato de Portugal de Ralicross, Kartcross e Super Buggy na categoria Super Nacional 2RM. E apesar de as mulheres serem uma minoria, Andreia não sente essa diferença. «É ótimo ser mulher num desporto predominantemente dominado por homens. Sou muito acarinhada por todos os pilotos, organização e público. E quando ganhamos uma prova, o sentimento de missão cumprida é predominante, visto que para muita gente é uma coisa impossível».

Para Andreia Sousa não há impossíveis, mas acredita que muitas mulheres preferem não correr, com medo de represálias. «Visto que é um ´desporto de homens´, acho que muitas mulheres sentem medo, insegurança ou então pensam que não são capazes, mas têm de se lembrar que nós podemos fazer tudo igual a eles, não somos menos nem mais que eles». E deixa um recado. «O meu segredo é sempre tentar estar calma e sem objetivos muito grandes. Prefiro pensar em que vou fazer o meu melhor, mostrar a minha condução e tentar acabar e quando esse fim chegar, ver que a minha tranquilidade e a minha boa condução fizeram-me chegar ao pódio».

A mesma opinião é partilhada por Daniela Godinho, que considera que o público e alguns pilotos ainda vivem muito enraizados a pensamentos antigos no que respeita à participação de mulheres no automobilismo. «Devia haver mais mulheres nesta vertente. Não o fazem por falta de coragem, sangue frio e paciência para correr no meio de imensos homens, devido aos comentários que ao início eu ouvia, do género, ‘ aquela só estorva, não está ali a fazer nada’ entre outra…». E de facto Daniela tem estorvado, não só em Portugal, mas também além-fronteiras.

Andreia Sousa não tem nenhum amuleto da sorte, mas sim um berço recheado de experiência e aprendizagem. «Desde pequenina que sempre acompanhei o meu pai, via e ficava fascinada e então sempre lhe pedi que, quando eu completasse 14 anos para me colocar no ralicross e ele assim o fez. Considero-me uma amante da modalidade visto ser um desporto de contacto e que permite termos contacto direto com os nossos adversários, lado a lado. O meu pai nunca me obrigou nem me influenciou a nada, sempre me deixou fazer as minhas escolhas, mas a mesmas tinham por base as dele. Sempre quis seguir as pisadas dele e consegui».

Melhor momento? Para Andreia Sousa o ponto alto da carreira foi quando mudou de divisão, o salto que lhe permitiu ganhar mais confiança no seu trabalho. «Foi quando comecei a mostrar que realmente estava lá para dar luta».

Para a nova época, Andreia promete voltar ao mais alto nível, e para Sever do Vouga já escolheu o carro. «Vou continuar com o carro do meu pai, com uma nova imagem, com novos patrocinadores e com um carro mais evoluído, mas acho que já posso confirmar que é meu».

Apaixonada pelos automóveis, a piloto confessa que gostava um dia de se aventurar no campeonato de montanha. Para já, de uma coisa tem certeza – as histórias que as memórias não apagam. «O momento mais marcante da minha época de 2019, foi quando capotei em Mação pela primeira vez. Fiquei tão nervosa, mas o carro caiu direito e consegui continuar a corrida e acabar em segundo lugar».

Daniela de Almeida Godinho: a Mecatrónica no feminino

Daniela Godinho entrou no desporto motorizado em 2014, nas modalidades de motocross e enduro. Em 2017, passou para as quatro rodas, mais concretamente para o kartcross, tendo terminado a temporada de 2018 em terceiro lugar na Taça de Portugal. Seguir o caminho da mecatrónica foi algo fácil de decidir e uma consequência natural. Estava-lhe já no sangue a vontade de ´mexer´ em motores.

Em 2019, Daniela Godinho foi considerada a melhor senhora no absoluto de kartcross. No curriculum conta já com uma carreira internacional. «Sim já conto com algumas provas internacionais. Há dois anos fui duas vezes a França, achei um grande desafio pois há uma classe simplesmente de senhoras, sendo que a mais nova era eu que na altura tinha 19 anos e a mais velha teria 45 anos. Lá as mulheres são como os homens cá, com garra e levam as corridas bastante a sério. E o ano passado fui duas vezes a Espanha e adorei ainda mais que França, há uma categoria que se chama Promoção onde os kartcross deve de respeitar algumas regras e andei sempre no top 3, porém, nas corridas finais como era portuguesa acontecia-me sempre algo».

Considerada uma das pilotos femininas mais promissoras em Portugal, Daniela Godinho orgulha-se de ser a primeira mulher a concluir a Licenciatura em Mecânica Automóvel no INETE – Instituto de Educação Técnica, em Lisboa. E fê-lo por razões muito pessoais. O pai, desde sempre ligado à mecânica automóvel, incutiu-lhe o ´bichinho´. Não só dessa área, mas, também, da velocidade. Nuno Godinho tem um duplo papel na vida da jovem: ser pai e treinador. «Tudo começou nas motas, mas era um desporto um pouco violento. O meu pai sempre teve ligado ao mundo motorizado e também automóvel onde durante cinco anos correu com um kartcross semog. Na altura devia ter dois ou três anos e acompanhava-o para todo o lado. Anos mais tarde decidiu voltar a divertir-se num kartcross e foi no primeiro treino dele que me meteram dentro de um kartcross. Gostaram de me ver andar e foi aí que tudo começou até aos dias de hoje».

São muitos os momentos que destaca ao longo da carreira, que ainda vai a meio. Para já, Daniela prepara-se para o início do Campeonato de Kartcross. E enquanto espera pelo verdito final, de todos os sonhos, há dois em particular que a acompanham para todo o lado. «<Quero fazer uma prova do Dakar. O outro é fazer uma corrida Portalegre de Mota com o meu Pai, os dois nas nossas motas». Cada corrida, Daniela vence-a como se fosse a sua primeira vez, mas quando pisa o pódio não há palavras que descrevam aquela sensação.

E por falar em mulheres, Pedro Gil Vasconcelos não esquece as peripécias da ´rapariga mais rápida de sempre´ no Rali de Portugal. Falamos de Michelle Mouton e Fabrizia Pons quando fizeram furor, ao volante do Audi Quattro.

«Pois bem, nesses tempos, estava uma equipa de cronometragem a fazer um CHC, num qualquer controlo, numa qualquer classificativa, algures no Centro deste nosso Portugal. Um controlador, ao devolver a carta de controlo a Fabrizia Pons, entendeu que devia ser simpático, no fundo seguindo a velha breve-máxima: ´a quem nos visita, o Sol da nossa simpatia´.

O problema é que naquele dia e nos precedentes, as meninas do Audi já tinham tido ´Sol´ que chegasse e o controlador só por um triz, não ficou com o bigode entalado na porta do Audi Quatro.

No dia seguinte esta mesma equipa estava num outro CHC, numa qualquer classificativa no Norte deste nosso Portugal. Ouve-se um rugido e os curiosos afastam-se para que o monstruoso Audi pudesse franquear a passagem, coisa que fez em grande velocidade, e parasse junto ao controlo. Michelle Mouton e Fabrizia Pons vinham a queimar a hora de chegada.

A porta abriu-se e Fabrizia, em grande stress, esticou a carta de controlo para fora do monstro, enquanto gritava:
– VITE, VITE!
Ao que o controlador com aspirações a Rodolfo Valentino respondeu:
– Eu também te vi – virou-se para o resto da equipa, com um gigantesco sorriso a sublinhar o bigode e acrescentou – estão a ver, ela lembra-se de mim!»

 

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