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“Foi um grande orgulho dirigir um Rali para mulheres” (por Miguel Sousa Azevedo)

“Foi um grande orgulho dirigir um Rali para mulheres” (por Miguel Sousa Azevedo)

Isabel Martins (Diretora de Prova)

Isabel Martins foi a Diretora de Prova do recente Rali Sprint Praia da Vitória, prova que abriu o inédito Ladies Rally Trophy, competição exclusiva para pilotos femininos. Em entrevista, confessa-nos o orgulho que foi desempenhar aquele papel.

– Estreou-se como Diretora de Prova no primeiro rali no mundo para pilotos femininos. Foi uma responsabilidade acrescida?

Foi uma grande responsabilidade. Por ser a primeira vez que assumi essas funções e por ser uma prova inédita. Era um sonho antigo, a que se juntou a responsabilidade de representar e homenagear a Mulher.

– Como viu a prova? Não só a parte organizativa, mas também a competição e o impacto social da mesma?
O que, no início, poderia ser um projeto sem pernas para andar, passou a um grande acontecimento, cujo interesse e entusiasmo foram crescendo dentro e fora da organização. A esse nível, e também na competição e no impacto social, provou ter o seu lugar. E fez-nos querer mais, para retribuir o voto de confiança dos que acreditaram na prova e quiseram homenagear todas as mulheres.

– Acredita que, através do desporto – no caso motorizado – se pode passar uma mensagem diferente sobre o papel das mulheres em universos onde predominam os homens?
No desporto, como em qualquer área da vida, a mensagem só depende de nós. Foi com o objectivo de homenagear as mulheres, de mostrar que são capazes de vencer em qualquer área, dando o devido destaque às mulheres que há muito vivem neste mundo predominantemente masculino, e cativando outras para este desporto, que nasceu a ambição de pôr só mulheres à frente da organização e ao volante de carros de rali. Isso partiu do sonho conjunto de homens e mulheres ligados à organização de provas. Foi muito gratificante ver regressar pessoas que já se tinham afastado dos ralis, perceber o entusiasmo, o empenho e a alegria de superação daquelas que se juntaram a nós pela primeira vez, e perceber a satisfação de todos os que participaram, mulheres e homens que sempre fizeram e fazem ralis. É mesmo possível passar uma mensagem diferente sobre o papel das mulheres através do desporto motorizado.

– A equipa técnica do rali foi quase 100% feminina. Como correu o trabalho e que principais dificuldades encontraram?
Não obstante a satisfação e o orgulho por ter conseguido uma equipa técnica quase 100% feminina no rali, numa bonita homenagem à Mulher, não posso deixar de aproveitar a oportunidade para elogiar todos os homens que colaboraram na organização e divulgação do rali. Sem eles não teria sido possível. As dificuldades foram as mesmas que em qualquer outra prova mas, de uma forma geral, penso que é globalmente aceite entre toda a equipa, feminina e masculina, que o trabalho correu bem.

– Faz parte de uma família com ligações antigas aos automóveis. Este foi o seu passo mais importante dado nesse campo?
Se tivermos em conta a responsabilidade e a dimensão da função que desempenhei nesta prova, foi o passo mais importante na organização de ralis, apesar de não o ter sentido como tal. Tudo porque o percurso já feito na organização de ralis aconteceu de uma forma natural e foi crescendo comigo. Nasci e cresci no mundo dos ralis, “culpa” do meu pai que, para além ter sido um dos fundadores do Terceira Automóvel Clube, faz parte da organização de provas motorizadas há mais de 40 anos. E foi também o responsável por levar a minha mãe para os ralis, transmitindo a paixão por aquele desporto às filhas. De uma forma inata e gradual, cresci na organização, comecei por tirar fotocópias e afixar tempos, aprendi muito ao observar atentamente tudo o que se vivia no secretariado durante muitas provas, parti para a estrada nos controlos, fui fazendo mais do que me era exigido e experienciando um pouco todas as tarefas inerentes aos ralis. Talvez por isso, assumir esta função, tenha sido apenas o subir de apenas mais um degrau no mundo dos ralis.

– Nunca houve vontade de participar de uma outra forma nos ralis? Dentro de uma viatura, por exemplo?
Em tempos chegou a haver esse sonho, partilhado em tom de brincadeira e sem grandes consequências, com a minha irmã. Teria sido uma possível dupla feminina. Mas, com o passar do tempo, o desejo desvaneceu-se e foi anulado pelo gozo que nos dá a organização dos ralis. Acabamos na mesma por fazer equipa, não dentro de uma viatura, mas na condução da prova.

– De que modo se pode classificar uma iniciativa inédita, que levou a Terceira e os Açores a outras paragens?
Esta foi uma iniciativa inédita que agitou o mundo dos ralis no feminino, localmente e além fronteiras, e demonstrou o empreendedorismo incessante que provém da paixão terceirense pelos ralis. A prova trouxe muitos concorrentes, equipas, comunicação social e visitantes, alguns pela primeira vez, aos Açores. Essas pessoas puderam comprovar a nossa capacidade na organização de provas motorizadas, conhecer as nossas estradas e paisagens, a nossa hospitalidade e gastronomia. A comunicação social deu destaque a todas essas nossas capacidades.

– A experiência é para repetir, nas três provas do Ladies Rally Trophy by Clubauto, que se correrão na Terceira?
Sem dúvida. É uma experiência a repetir, não só no Ladies Rally Trophy como noutras provas, não só na direcção de prova como noutras funções dentro da máquina organizativa. Os ralis são uma paixão que me acompanha desde sempre e que continuará a fazer parte integrante da minha vida.

– É médica de profissão, o que obriga a uma concentração constante em várias frentes. Esse factor ajudou durante a prova?
As competências que adquiri e adquiro todos os dias na minha vida profissional ajudaram, naturalmente, no trabalho desenvolvido antes, durante, e em toda a organização da prova. Assim como a experiência que adquiri e adquiro na organização de ralis também me ajuda na minha prática profissional. Qualquer uma das actividades exige grande preparação, estudo e dedicação, invisíveis aos olhos de muitos, mas que consomem muito tempo e trabalho de casa. Dependem ambas do trabalho em equipa, que obriga a lidar com diferentes pessoas, que nos põe à prova e que, muitas vezes, exige uma resposta rápida e fundamentada. São duas áreas onde tenho crescido e que me fazem crescer.

 

Fonte: Miguel Sousa Azevedo

Fotos: António Bettencourt e Ricardo Laureano

 

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