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O Sufoco de 1986-por Fernando Petronilho

O Sufoco de 1986-por Fernando Petronilho

O Vodafone Rally de Portugal está a menos de duas semanas de ir para a estrada e o Nuno Dinis Photos volta a firmar parceria com a Rádio Boa Nova e em conjunto vão apresentar algumas estórias vividas por diversos intervenientes ao longos dos anos no nosso rali.

Desde pilotos, navegadores,jornalistas,fotografos,apoiantes,membros da organização, vamos tentar levar até vós, leitores e ouvintes alguns dos momentos que marcaram o Rally de Portugal ao longo dos anos.

Neste primeiro artigo contámos com a colaboração do jornalista Fernando Petronilho, ex-diretor do jornal Autosport e antigo responsável pela imprensa no Vodafone Rally de Portugal.

Fernando Petronilho é um dos mais conceituados jornalistas portugueses de desportos motorizados e não quis ficar de fora da nossa iniciativa e decidiu escrever umas linhas sobre uma das edições mais dificéis da história do nosso rali, que foi no ano de 1986, quando o Ford da Diabolique e que era pilotado por  Joaquim Santos e Miguel Oliveira, se despistaram nos quilómetros iniciais da nossa prova e que levou as equipas de fábrica a abandonarem o rali que foi ganho por Joaquim Moutinho e Edgar Fortes no Renault 5 Turbo.

 

“O SUFOCO DE 86

 

Das dezenas de edições do Rali de Portugal que acompanhei, sem dúvida o momento que mais me marcou foi o vivido na de 1986, tristemente assinalada pelo acidente de Joaquim Santos e pela retirada de todas as equipas oficiais da prova.

Há 30 anos não havia zonas de espetáculo nem qualquer controlo sobre o comportamento dos espetadores, que eram deixados ao seu livre arbítrio em termos de colocação, sempre na expetativa que conseguissem ser mais rápidos do que os cada vez mais performantes Grupos B.

Nessa época, fazer o suplemento do Autosport implicava um enorme trabalho, pois era necessário ir de caderno de itinerários na mão à descoberta das classificativas, tentando encontrar todos os acessos possíveis para partilhar com os leitores, para que estes pudessem estar devidamente informados sobre o modo de chegar às classificativas.

E foi isso que fizemos – eu e o Mário Guerreiro, meu colega da altura – uma vez terminado o rali Sopete, pois a segunda etapa do rali desse ano, toda em asfalto, era um “copy paste” da prova organizada pelo Targa Clube. E uma coisa me chamou desde logo a atenção: em primeiro lugar, a extrema rapidez dos troços, onde se poderiam atingir velocidades perigosíssimas para os espetadores. Esta situação não agradou nada aos pilotos nos reconhecimentos, dado que tinham a noção dos potenciais riscos perante multidões descontroladas.

E o que se passou em Sintra foi apenas a gota de água que fez transbordar o copo da paciência de equipas e pilotos. Lembro-me perfeitamente de Jean Todt me pedir, na assistência da Peugeot junto ao cemitério de Tires, para fazer um apelo, via Rádio Renascença, a César Torres para parar  de imediato o rali.

E depois, quando cheguei ao Autódromo do Estoril, os pilotos pediram-me se eu lhes conseguia arranjar uma sala no então Hotel Estoril Sol para reunirem e decidir o que iam fazer para o resto da prova. Dadas as minhas excelentes relações com todo o pessoal do hotel, sobretudo da receção, não foi difícil conseguir isso, tendo ficado à porta a servir de “controlador”, para que ninguém invadisse esse espaço a não ser os interessados.

Foram momentos de grande tensão, com muitos jornalistas presentes no local – lembro-me que um francês decidiu aproveitar a entrada de um “room service” para os pilotos para colocar um gravador no andar inferior do carrinho do empregado e, mais tarde, quando entrámos para saber da decisão dos pilotos, o gravador estava aberto, com a cassette no exterior e a fita toda desenrolada…

Recordo-me de ter sido dos poucos portugueses a apoiar a decisão dos pilotos de não quererem continuar em prova. Isso valeu-me, na altura, ferozes críticas e alguns dissabores pessoais, mas a minha consciência e o conhecimento que tinha da realidade não me podiam levar a tomar outra atitude senão essa.

A esta distância as coisas são bem mais suaves e tranquilas, mas essa edição do rali de Portugal foi um verdadeiro sufoco, sobretudo até ao final do primeiro dia e deixou-me marcado por muitos e bons anos!”

 

Foto- Facebook Fernando Petronilho

 

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